Mochila Digital: inclusão ou mais exclusão?

Mochila Digital: inclusão ou mais exclusão?
Mesmo que as escolas ainda desconfiem da eficiência e eficácia do uso de
dispositivos eletrônicos na sala de aula, a transição para formatos
digitais esta se mostrando irreversível. * Lucy Gruenwald e Cristiana
Cerchiari Como escreveu Celso Ming(1) , a Mochila é Digital! Segundo o
artigo, o Ministério da Educação (MEC) aplicou, para o ano letivo de
2014, R$ 67 milhões em ferramentas digitais complementares aos livros
impressos e o edital de compra de 2015 já prevê a aquisição de livros
digitais e obras multimídia, com vídeos, animações, mapas interativos e
outros recursos associados aos textos escritos. Em algumas escolas, o
material escolar do Ensino Médio, por vezes se limita a um caderno de
anotações e ao tablet, equipamento que leva vantagem de poder ser usado
no ano seguinte. O diretor de Ações Educacionais de Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE), Rafael Torino, citado no artigo de
Ming, diz que “Este é um processo gradual de inserção digital, não será
obrigatório e não será uma substituição pura e simples dos livros
impressos”. Ótimo! As escolas, professores, pais e alunos terão opção,
ou seja, poderão escolher entre o livro impresso ou o livro digital.
Mas, como ficam os alunos com deficiência que são impossibilitados de
usar uma versão impressa? Eles terão acesso aos livros no formato
eletrônico em igualdade de condições? Vejamos as seguintes situações.
Para os alunos cegos, o formato digital pode ser uma ótima oportunidade
para terem acesso aos livros, já que não podem ler versões impressas e
as versões em braile nem sempre estão disponíveis. Pessoas cegas podem
ler livros se estiverem em formato eletrônico utilizando leitores de
tela (programas que “falam” com voz sintetizada) ou um linha braile
(equipamento eletrônico acoplado ao computador do usuário que reproduz
em braile – por meio de pinos que sobem e descem – o conteúdo da linha
do texto apresentada na tela). Para alunos com baixa visão, conteúdos no
formato digital também podem fazer toda a diferença. Livros impressos
podem ter tipografias que não atendem as necessidades destes alunos que
para visualizar podem precisar de letras ou espaçamentos entre linhas
muito maiores, ou então mudar o contraste entre as cores do texto e a de
fundo (exemplo: fundo preto com letras brancas). A disponibilização de
livros com essas características não parece viável e nem tem sido
contemplada pelas editoras. Entretanto, se o livro estiver no formato
digital, eles poderão ser lidos mais facilmente no computador (com
softwares ampliadores), em tablets ou em equipamentos específicos de
leitura conhecidos como e-readers, já que todos possuem recursos para
atender a estas necessidades específicas das pessoas com baixa visão. Os
alunos com dificuldade de mobilidade nos membros superiores também
poderão se beneficiar da versão digital. Segurar ou “virar” as páginas
de um livro pode ser muito mais fácil em um tablet do que na versão
impressa. A versão digitalizada poderia dar-lhes autonomia para fazer
isto, quer por um toque na tela, quer por comando de voz. Para alunos
com dislexia, com dificuldade de leitura ou de aprendizagem o formato
digital pode ser também de grande valia. Poderão usar sintetizadores de
voz que sincronizam a fala com a localização do cursor na tela,
sublinhando e destacando as palavras lidas enquanto é feita a leitura, o
que pode favorecer a relação entre sons produzidos por fonemas e suas
respectivas representações gráficas facilitando a aprendizagem. Os
livros digitais permitem ainda que alunos com (e sem) deficiência
possam, além de ler, fazer marcações, copiar trechos, soletrar palavras,
fazer buscas em dicionários online etc. Livros digitais podem inclusive
conter multimídia embutida (arquivos de áudio e vídeo) que com certeza
tornarão o aprendizado mais dinâmico e divertido. Um livro digital
(e-book) pode ser lido em computadores, equipamentos específicos
(e-readers), em tablets ou celulares que suportem esse recurso e pode
ser armazenado em vários formatos como: PDF, HTML, e-Pub, DAISY, iBook,
Kindle entre outros. O que é extremamente importante saber é que,
dependendo do e-reader ou do formato do e-book escolhidos, o livro
(mesmo que digital) poderá não ser lido por determinadas tecnologias de
apoio (conhecidas como assistivas), como os leitores de tela (usados
pelos alunos cegos), os ampliadores (usados por alunos de baixa visão ou
os sintetizadores de voz, se o conteúdo digital não for adequadamente
“acessibilizado”). “Acessibilizar” um conteúdo digital significa incluir
marcações extras e tomar alguns cuidados (como por exemplo, verificar e
eventualmente corrigir a ordem de leitura dos elementos da página). Ou
seja: NÃO BASTA SER DIGITAL, TEM QUE SER ACESSÍVEL. Garantir a
acessibilidade dos livros digitais não é tarefa fácil porque envolve
vários atores, mas é meta imprescindível. E como cada ator pode se
preparar para esta tarefa tão desafiadora? O que os Governos podem
fazer? • Incluir em suas licitações os requisitos de acessibilidade
tanto para a compra de tablets quanto para a compra de livros didáticos.
• Especificar, em detalhes, o que se entende por livro digital acessível
(caso contrário, cada Editora criará o seu padrão, segundo o seu
entendimento e interesse). • Fomentar o conhecimento dos requisitos de
acessibilidade nos livros digitais escolares, junto às editoras, escolas
e professores. • Definir responsabilidades na criação do material
acessível e na oferta de versões alternativas para atender alunos com
deficiências específicas. O que as Editoras podem fazer? • Entender as
necessidades das pessoas com deficiência e seu potencial como consumidor
de cultura, comercializando versões digitais acessíveis. O que as
Escolas podem fazer? • Considerar acessibilidade desde o início, quando
planejarem o uso de novas tecnologias. • Adquirir somente livros
digitais e tablets que sejam acessíveis aos alunos com deficiência, ou
prover recursos para criar versões alternativas na própria instituição.
• Capacitar os professores para que utilizem tecnologias assistivas em
seu trabalho e entendam as necessidades dos alunos com deficiência com
relação ao material digital, utilizando para este fim, por exemplo, os
horários de trabalho pedagógico. • Alocar recursos para compra de
tecnologias assistivas adicionais, quando for o caso. • Oferecer suporte
a alunos com deficiência e a professores para aquisição de tecnologia e
treinamento no uso de material digital acessível. • Prover legendagem e
audiodescrição em livros que contiverem recursos multimídia para que
alunos cegos e surdos possam acessar o conteúdo em igualdade de
condições. O que os professores podem fazer? • Entender as
possibilidades da Acessibilidade Digital. • Selecionar livros e vídeos
para suas aulas que atendam aos requisitos de acessibilidade e/ou
disponibilizar adaptações desses materiais que tenham sido feitas por
eles. • Ajudar a identificar as necessidades do aluno com deficiência
para que ele tenha acesso aos recursos mais adequados. O que as
Organizações Não Governamentais, com foco na pessoa com deficiência,
podem fazer? • Liderar movimentos que pressionem fabricantes e
fornecedores a oferecer produtos com acessibilidade para as pessoas com
deficiência. • Protestar junto aos Ministérios de Educação e Justiça
quando constatarem que os direitos das pessoas com deficiência não estão
sendo atendidos. (leia artigo interessante em “Make Kindle E-books
Accessible” da National Federation of the Blind (NFB) sobre o movimento
que liderou, desde 2009, contra a Amazon por causa da inacessibilidade
do seu produto Kindle, e a orientação que fizeram para que as
Universidades não adotassem este produto como padrão em suas
instituições). O que os familiares e os alunos com deficiência podem
fazer? • Exigir, de suas escolas, que sejam cumpridas as ações do Artigo
24 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) da
ONU (promulgada no Brasil como Decreto Legislativo 186/08), que diz o
seguinte: “Os Estados partes assegurarão que as Pessoas com Deficiência
não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de
deficiência… que sejam providenciadas adaptações razoáveis de acordo
com as necessidades individuais… que recebam apoio necessário, no
âmbito do sistema educacional geral, com vistas a facilitar sua efetiva
educação…” Concluindo: Por ampliarem o acesso de muitos alunos a
materiais escritos, o uso de livros digitais nas escolas pode fazer uma
enorme diferença na inclusão do aluno com deficiência, mas se não forem
acessíveis, serão inúteis, pois criarão novas barreiras, podendo trazer
uma exclusão ainda maior para esses alunos. O Brasil, que está se
iniciando no processo de transformação digital na área da Educação, não
pode perder esta grande oportunidade de criar condições para que alunos
com deficiência tenham não só a oportunidade de entrar na escola, mas de
permanecer nela, exercer a cidadania e adquirir conhecimentos
necessários para participar, futuramente e produtivamente, do mercado de
trabalho e do mercado consumidor.
http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2014/02/01/mochila-digital/

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